Estágios da doença renal crônica (G1 a G5)
O estadiamento KDIGO classifica a doença renal crônica em seis categorias de taxa de filtração glomerular estimada, de G1 a G5, e em três categorias de albuminúria, de A1 a A3. O diagnóstico exige alteração persistente por pelo menos três meses: a TFG estimada isolada não basta.
Categorias de TFG estimada
As categorias de TFG do KDIGO dividem a taxa de filtração glomerular estimada em seis faixas, sempre em mL/min/1,73 m². A categoria G3 é subdividida em G3a e G3b porque o prognóstico difere de forma relevante entre essas duas metades.
| Categoria | TFGe (mL/min/1,73 m²) | Descrição |
|---|---|---|
| G1 | ≥ 90 | TFG normal ou alta |
| G2 | 60–89 | Redução leve da TFG |
| G3a | 45–59 | Redução leve a moderada |
| G3b | 30–44 | Redução moderada a grave |
| G4 | 15–29 | Redução grave |
| G5 | < 15 | Falência renal |
Categorias de albuminúria
As categorias de albuminúria do KDIGO completam o estadiamento e são definidas pela razão albumina-creatinina urinária, em mg de albumina por grama de creatinina, ou pela excreção em mg por 24 horas.
| Categoria | Albuminúria (mg/g ou mg/24 h) | Descrição |
|---|---|---|
| A1 | < 30 | Normal a levemente aumentada |
| A2 | 30–300 | Moderadamente aumentada |
| A3 | > 300 | Gravemente aumentada |
O registro completo combina as duas dimensões, por exemplo G3a A2. Registrar apenas a categoria de TFG perde a informação prognóstica trazida pela albuminúria.
Por que a TFG estimada isolada não estabelece o diagnóstico
A doença renal crônica é definida por anormalidade estrutural ou funcional dos rins com duração de pelo menos três meses. Uma TFG estimada de 55 mL/min/1,73 m² identifica a categoria G3a naquele momento, mas não diz se a alteração é persistente nem se há lesão renal.
Este é o erro conceitual mais comum na leitura do resultado. Duas consequências práticas:
- Sem cronicidade não há doença crônica. Uma queda aguda da filtração é lesão renal aguda, não doença renal crônica, e o próprio uso das equações de estimativa é inadequado nessa situação.
- Sem albuminúria a categoria G3a fica incompleta. Se não há albuminúria nem outro marcador de lesão renal, uma medida isolada nessa faixa não caracteriza doença renal crônica: é preciso confirmar a persistência antes de rotular o paciente.
Complicações que acompanham as categorias avançadas
Nas categorias G4 e G5 as complicações metabólicas se tornam frequentes e são avaliadas junto com a estimativa de filtração. O tratamento dessas complicações está fora do escopo deste site, mas três delas envolvem cálculos laboratoriais que costumam ser feitos na mesma consulta:
- A acidose metabólica da doença renal crônica avançada é caracterizada pelo cálculo do ânion gap, que separa a acidose por retenção de ânions da acidose hiperclorêmica.
- Os distúrbios do sódio são comuns nessas categorias, e quando há hiperglicemia associada o valor medido precisa ser lido junto com o sódio corrigido.
- No distúrbio mineral e ósseo, a leitura do cálcio total exige atenção à albumina — com a ressalva importante de que o cálcio corrigido não deve ser usado nos estágios G4 a G5D, situação em que se prefere o cálcio ionizado.
Perguntas frequentes
Uma única TFG estimada alterada fecha o diagnóstico de doença renal crônica?
Não. O diagnóstico de doença renal crônica exige que a alteração da filtração glomerular ou o marcador de lesão renal persistam por pelo menos três meses. Uma medida isolada de TFG estimada identifica uma categoria de TFG, não uma doença.
O que significa estágio 3a da doença renal crônica?
A categoria G3a corresponde a TFG estimada entre 45 e 59 mL/min/1,73 m², redução leve a moderada. É a faixa em que a confirmação importa mais, porque sem albuminúria e sem outro marcador de lesão renal a categoria por si só não caracteriza doença renal crônica.
Como se classifica a albuminúria no KDIGO?
A albuminúria é classificada em três categorias pela razão albumina-creatinina urinária: A1 abaixo de 30 mg/g, A2 entre 30 e 300 mg/g e A3 acima de 300 mg/g. Os mesmos limites valem para excreção em mg por 24 horas.
Por que a albuminúria entra no estadiamento?
A albuminúria é um marcador de lesão renal independente da filtração e agrega informação prognóstica. Por isso o estadiamento KDIGO é bidimensional: a categoria de TFG (G) e a categoria de albuminúria (A) são registradas juntas, como G3a A2.
Pode existir doença renal crônica com TFG estimada normal?
Sim. Nas categorias G1 e G2 a filtração está normal ou levemente reduzida, e a doença renal crônica é caracterizada por outro marcador persistente de lesão, como albuminúria, alteração do sedimento urinário, alteração estrutural em imagem ou histologia.
Qual estimativa usar para estadiar: clearance de creatinina ou TFG estimada?
Para estadiamento use a TFG estimada em mL/min/1,73 m², porque as categorias KDIGO são definidas nessa unidade. O clearance de creatinina em mL/min não é normalizado para superfície corporal e não pode ser lido diretamente na tabela de categorias.
Quais complicações aparecem nas categorias G4 e G5?
Nas categorias G4 e G5 tornam-se frequentes a acidose metabólica, os distúrbios do sódio e do potássio e as alterações do metabolismo mineral e ósseo. A avaliação dessas complicações acompanha a estimativa de filtração, mas o tratamento delas está fora do escopo deste site.
O cálcio corrigido pela albumina serve na doença renal crônica avançada?
A correção do cálcio pela albumina não é recomendada nos estágios G4 a G5D: nessa população a relação entre cálcio total, albumina e cálcio ionizado se altera, e a fórmula de correção perde validade. Nesse contexto a medida de cálcio ionizado é preferível.
Referências
- Kidney Disease: Improving Global Outcomes (KDIGO) CKD Work Group. KDIGO 2024 Clinical Practice Guideline for the Evaluation and Management of Chronic Kidney Disease. Kidney International. 2024. kdigo.org/guidelines/ckd-evaluation-and-management/ Edição vigente na data da revisão desta página. Estadiamento G1–G5 e categorias de albuminúria A1–A3.
- Inker LA, Eneanya ND, Coresh J, et al. New Creatinine- and Cystatin C-Based Equations to Estimate GFR without Race. N Engl J Med. 2021;385(19):1737-1749. doi.org/10.1056/NEJMoa2102953 Equações CKD-EPI 2021, sem termo de raça.
- Kirsztajn GM, Silva Junior GB, Silva AQB, et al. Estimativa da taxa de filtração glomerular na prática clínica: posicionamento consensual da Sociedade Brasileira de Nefrologia (SBN) e Sociedade Brasileira de Patologia Clínica e Medicina Laboratorial (SBPC/ML). J Bras Nefrol. 2024;46(3):e20230193. doi.org/10.1590/2175-8239-JBN-2023-0193en Posicionamento brasileiro sobre estimativa de TFG e retirada do coeficiente de raça. PMID 38591823.
Ferramentas relacionadas
- calculadora de clearance de creatinina e TFG estimada — obtenha a TFG estimada e a categoria KDIGO a partir da creatinina sérica.
Autoria e revisão
Dr. Carlos Eduardo Miranda Bruzzi Felipe — CRM/MG 105.721
Médico com atuação em emergência pediátrica e atenção primária em Minas Gerais, Brasil. Autor, revisor técnico e responsável pelo conteúdo médico deste site.
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